Ela não tinha medo do escuro do quarto. Por vezes preferia mesmo as luzes apagadas, aquele ar de anoitecer sempre que possível. Ela acreditava que o escuro trazia o mistério de você poder ser quem quiser, sem as lamparinas alheias voltadas pra dizer se você está certo ou errado.
Ela não tinha medo do escuro do quarto. Mas entrava em pânico quando se deparava com o escuro das pessoas. Talvez ninguém acredite nisso, mas ela sabia, de uma forma sábia e inocente ao mesmo tempo, que no fundo de cada alma humana, há uma escuridão prestes a dominar tudo, há um inverno por trás de cada primavera. Sim, ela aprendera com as primaveras, assim como Cecília Meireles, a deixar-se cortar, para voltar sempre inteira. Sabia que era necessário deixar-se podar, para se renovar. Mas ainda assim, todo aquele inverno, toda a escuridão, tudo aquilo lhe assustava de um modo que mal conseguia respirar. Angústia. Era o que ela sentia. Tinha que aprender a lidar com a escuridão alheia, quando antes só precisava entender a luz apagada do quarto, a sua própria escura solidão.Entender. Uma palavra que nem sequer entende a si mesma. Foi então que ela decidiu, para não mais ter medo do escuro das pessoas, sair pelas ruas escurecida também, assim quem sabe, tudo pareceria mais normal pra ela. E de tão normal que a vida se tornou, ela não mais quis entender, não mais sentiu medo. Ela escurecera. Bem como todos à sua volta. E daquele dia em diante, naquele mundo em que ela vivia, aquele que tivesse luz, não era rei, era errado. Ela virara inverno. As primaveras extinguiram-se. E o mundo passou a ser preto e branco.
"Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém, provavelmente a minha própria vida." (Clarice Lispector)
sábado, 29 de outubro de 2011
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Dia desses alguém me disse que meus olhos não brilham mais. Que ando por aí como se não houvesse mais razão de ser, sem vida, sem vontade. Mas eu haveria de ter razões?Confesso, meus passos andam agressivos demais, meu corpo está mais pesado que de costume, meu esboço de sorriso diário saiu do lugar de sempre, e meu rastro não é o mesmo perfume adocicado da primavera passada. Tento me defender dizendo que o inverno chegou, e por consequência, eu esfriei com ele. Sou uma mulher do Tempo, você já devia saber. Não paro. E sigo essa rota, essa rotina, esse redemoinho de mudanças que me ocorrem sem que eu mesma perceba.
Congelei, talvez. Perdi a força pra andar feito gente, coisa que nunca fui realmente. Desaprendi a voar, me perdi no meio de todos os caminhos... Até que, enfim, meu rumo me procurou. Exatamente, eu não fui atrás dele, mas ele veio até mim, o rumo que eu pensei ter perdido, voltou-se e me puxou com força do concreto onde eu caíra. Me apoiou nos primeiros passos, e reergueu minhas asas. Infelizmente, meus olhos continuaram opacos, mortos em vida... Mas quem precisa de olhos que brilham, tendo asas como as que eu tenho?
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Poezita
Texto dedicado à Inezita Sherman
Realejo...
Um dia, foi sem querer, eu juro, eu cruzei o caminho dela. No começo não fazia sentido. Tão difícil de entender, tão inalcançável e inescrupulosa. Tão, mas tão cheia de tudo, que às vezes até se sentia vazia. Eu tão prosa e ela tão poesia, quem diria? Ela negaria, eu sei disso. Ela tem essa mania, de negar tudo de mais belo que a compõe, de não alcançar a si mesma. Mas é que de ser grande demais, ela não se abarca. Nem alegre, nem triste, nem mais. Nada de exageros, com ela não combina. É a pura calmaria. É o alto mar depois da tempestade, a terra firme depois dos terremotos; ela não tem Sol nem escuridão, não mergulha de cabeça nos sonhos, mas vive "de mal" com a razão. Ela é paradoxo. Não aquele do "amor é fogo que arde sem se ver", e sim aquele que a gente nem consegue dizer. Intransitivo. Ela é o café amargo dos dias em que o cinza domina o céu. É o vinho tinto das noites sem ventania. O cigarro tragado com gosto pelo apaixonado. É uma das mulheres de Chico. É uma lágrima antes de cair. É a mesma lágrima que já secou. Ela não é durante, pois não sabe sê-lo, é antes e é depois. É passado e futuro, de vez em quando é presente, mas ela não se adéqua a essas urgências. Ela é céu e é mal. É um sorriso encapado de dor. Ela é o meu realejo, que me empresta alegria... É uma eufórica melancolia. Mas acima de tudo, ela é toda poesia. Quando eu digo, ela não acredita, mas ela é feita toda de verso, sem rima, sem métrica, de verso solto, de palavra cantada, de música falada, de história sem fim.
Se eu pudesse dar-lhe o Tempo de presente, eu juro que o faria, pois sei que com ele, ela se libertaria, se deixaria emanar, entregar, descobrir. Com ele, ela viajaria por todo verso e prosa que há no mundo. Encontraria, reencontraria. Ele até que é meu amigo, sabe? Mas anda meio ocupado demais, correndo de lá pra cá, sempre em frente, levando os pedaços da gente, pra deixar jogados naquele depósito lá do fundo do coração do mundo: a memória.
Então, fazer o quê? Só tenho para dar-lhe, as minhas palavras. Frágeis, fugidias, simples palavras. Tão longe de alcançarem-na... Mas vou indo pelo caminho que ela me ensinou a seguir. Cada pedaço de letra, cada fragmento de sentido... Foi ela que me ensinou. Todos a chamam de Inezita... mas, se eu pudesse transformá-la numa palavra, ela seria a Poesia; se fosse um sentimento, seria a Saudade; se fosse uma personagem, seria sempre a heroína... Toda certeza, coragem, e sensibilidade unidas num só corpo que às vezes me pergunto se é real. Eu cruzei o caminho dela, desviei seus passos, e ela me trouxe de volta, indicou o rumo certo, deixou um universo só dela pra ser descoberto. Bem aventurado aquele que se arriscar.
Realejo...
Um dia, foi sem querer, eu juro, eu cruzei o caminho dela. No começo não fazia sentido. Tão difícil de entender, tão inalcançável e inescrupulosa. Tão, mas tão cheia de tudo, que às vezes até se sentia vazia. Eu tão prosa e ela tão poesia, quem diria? Ela negaria, eu sei disso. Ela tem essa mania, de negar tudo de mais belo que a compõe, de não alcançar a si mesma. Mas é que de ser grande demais, ela não se abarca. Nem alegre, nem triste, nem mais. Nada de exageros, com ela não combina. É a pura calmaria. É o alto mar depois da tempestade, a terra firme depois dos terremotos; ela não tem Sol nem escuridão, não mergulha de cabeça nos sonhos, mas vive "de mal" com a razão. Ela é paradoxo. Não aquele do "amor é fogo que arde sem se ver", e sim aquele que a gente nem consegue dizer. Intransitivo. Ela é o café amargo dos dias em que o cinza domina o céu. É o vinho tinto das noites sem ventania. O cigarro tragado com gosto pelo apaixonado. É uma das mulheres de Chico. É uma lágrima antes de cair. É a mesma lágrima que já secou. Ela não é durante, pois não sabe sê-lo, é antes e é depois. É passado e futuro, de vez em quando é presente, mas ela não se adéqua a essas urgências. Ela é céu e é mal. É um sorriso encapado de dor. Ela é o meu realejo, que me empresta alegria... É uma eufórica melancolia. Mas acima de tudo, ela é toda poesia. Quando eu digo, ela não acredita, mas ela é feita toda de verso, sem rima, sem métrica, de verso solto, de palavra cantada, de música falada, de história sem fim.Se eu pudesse dar-lhe o Tempo de presente, eu juro que o faria, pois sei que com ele, ela se libertaria, se deixaria emanar, entregar, descobrir. Com ele, ela viajaria por todo verso e prosa que há no mundo. Encontraria, reencontraria. Ele até que é meu amigo, sabe? Mas anda meio ocupado demais, correndo de lá pra cá, sempre em frente, levando os pedaços da gente, pra deixar jogados naquele depósito lá do fundo do coração do mundo: a memória.
Então, fazer o quê? Só tenho para dar-lhe, as minhas palavras. Frágeis, fugidias, simples palavras. Tão longe de alcançarem-na... Mas vou indo pelo caminho que ela me ensinou a seguir. Cada pedaço de letra, cada fragmento de sentido... Foi ela que me ensinou. Todos a chamam de Inezita... mas, se eu pudesse transformá-la numa palavra, ela seria a Poesia; se fosse um sentimento, seria a Saudade; se fosse uma personagem, seria sempre a heroína... Toda certeza, coragem, e sensibilidade unidas num só corpo que às vezes me pergunto se é real. Eu cruzei o caminho dela, desviei seus passos, e ela me trouxe de volta, indicou o rumo certo, deixou um universo só dela pra ser descoberto. Bem aventurado aquele que se arriscar.
sábado, 24 de setembro de 2011
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Às vezes eu queria ser o seu relógio de pulso. Só pra ter a certeza de que, pelo menos de hora em hora, me olharias nem que fosse de relance, pra evitar um atraso, ou porque simplesmente terias o hábito de fazer isso.. Mas o simples fato de estar ali, colada a tua pele, sentindo teu pulsar, sabendo que não me largarias porque precisarias de mim..essas simples e inúteis certezas me fazem sonhar com o dia em que, como um relógio de pulso, eu também te seja necessária.
Da procura.
Te pesquisei certa vez no meu Aurélio. Busquei por teu nome, por uma definição plausível, por sinônimos,esclarecimetos. Queria saber se eras um substantivo, um verbo, ou só esse neologismo que eu pensei ter descoberto por conta própria. Mas vi que o meu Aurélio é limitado, não estavas lá. Te pesquisei nos meus cadernos de desenho, nos meus rabiscos de infância. Busquei teus traços incomuns e fortes, naquele jeito marcante que tinhas de expressar qualquer cisa que fosse. Mas nunca desenhei tão bem, nunca alcançaria essa tua essência única de quem não é desse mundo. Por último, como se fosse a cauda da minha esperança de te encontrar materializado, te busquei nos meus vinis. Me perguntarias porque não fui aos CD's,e eu te diria que as grandes obras musicais estão nos vinis, e embora sejas de uma "novidade" tão clara, só os vinis poderiam conter alguma nota que se assemelhasse a esse conjunto de sinfonias que intercalam tua voz teu dedilhar no violão.
No fim das contas, te pesquisei, te busquei, tentei tanto te encontrar, que só encontrei a mesma resposta que sempre esteve ao meu alcance... Tua uniciade te faz tão indefinível... e tua indefinição te faz tão inalcançável para mim, e o "não alcance" que me causas, traz essa vontade cada vez mais incessante de te entender, te conhecer.
E na desistência de te definir, preferi compartilhar os tédios com você, compartilhar os momentos intercalados em que eras meu único programa, ou eras o programa preferido. Os dias em que falar contigo era como esperar ansiosamente o show daquela banda mais amada, ou como o nervosismo pré encontro com alguém que se ama e não se vê há tempos... Compartilhei contigo a simples alegria de ouvir a desejada voz depois dos dias de saudade. E em cada nota que dedilhaste para mim, me ensinaste Felicidade. Podes me dizer que Felicidade não se ensina, e eu te direi "meu bem, eu também pensava assim". Mas conseguiste essa proeza..me ensinar algo que não faz parte da lista de disciplinas a serem ministradas. Eu aprendia, sem que soubesses, Felicidade contigo todas aquelas vezes... E me aprendia junto, como se me ensinasses a mim mesma sem que eu sequer percebesse. E de brinde, ainda te aprendia junto. Te ensinavas a mim como se fosses a melhor das matérias a serem aprendidas, como um livro de História, que nunca termina, o qual nunca consegue-se compreender por completo.
E hoje eu te digo, meu bem, que na batida do relógio a minha frente, meu coração ainda bate. Meu coração ainda é o mesmo DÓ que tocaste desde a primeira vez, porém agora, não mais aquele dó maior, completo de si, mas o dó bemol... o semi-tom que vem abaixo de você... Agora nada mais sou que o seu bemol, e você meu sustenido... e se eu pudesse, te transformava num drink todos os dias, só pra te beber por completo, e se assim não me fosse possível, eu te brindaria a cada noite, desejando mais e mais te encontrar no meio das partituras dessa minha vida que você transformou em música.
No fim das contas, te pesquisei, te busquei, tentei tanto te encontrar, que só encontrei a mesma resposta que sempre esteve ao meu alcance... Tua uniciade te faz tão indefinível... e tua indefinição te faz tão inalcançável para mim, e o "não alcance" que me causas, traz essa vontade cada vez mais incessante de te entender, te conhecer.
E na desistência de te definir, preferi compartilhar os tédios com você, compartilhar os momentos intercalados em que eras meu único programa, ou eras o programa preferido. Os dias em que falar contigo era como esperar ansiosamente o show daquela banda mais amada, ou como o nervosismo pré encontro com alguém que se ama e não se vê há tempos... Compartilhei contigo a simples alegria de ouvir a desejada voz depois dos dias de saudade. E em cada nota que dedilhaste para mim, me ensinaste Felicidade. Podes me dizer que Felicidade não se ensina, e eu te direi "meu bem, eu também pensava assim". Mas conseguiste essa proeza..me ensinar algo que não faz parte da lista de disciplinas a serem ministradas. Eu aprendia, sem que soubesses, Felicidade contigo todas aquelas vezes... E me aprendia junto, como se me ensinasses a mim mesma sem que eu sequer percebesse. E de brinde, ainda te aprendia junto. Te ensinavas a mim como se fosses a melhor das matérias a serem aprendidas, como um livro de História, que nunca termina, o qual nunca consegue-se compreender por completo.
E hoje eu te digo, meu bem, que na batida do relógio a minha frente, meu coração ainda bate. Meu coração ainda é o mesmo DÓ que tocaste desde a primeira vez, porém agora, não mais aquele dó maior, completo de si, mas o dó bemol... o semi-tom que vem abaixo de você... Agora nada mais sou que o seu bemol, e você meu sustenido... e se eu pudesse, te transformava num drink todos os dias, só pra te beber por completo, e se assim não me fosse possível, eu te brindaria a cada noite, desejando mais e mais te encontrar no meio das partituras dessa minha vida que você transformou em música.
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